Alunos de jornalismo da Faculdade das Américas recebem África do Coração para palestra sobre situação de refúgio e imigração

Fotos: Leandro Arcanjo – SP em Cena

A palestra “Refugiados de sua própria história – A vida de um imigrante” faz parte do projeto Ubuntu, realizado em escolas e universidades paulistanas, no qual membros da África do Coração realizam palestras compartilhando suas histórias e esclarecem os estudantes sobre os dramas envolvendo situação de refúgio e imigração

Alunos do curso de jornalismo da Faculdade das Américas receberam a visita da ONG África do Coração, na noite da última segunda-feira (30). Jean Katumba, presidente da entidade, (República Democrática do Congo -RDC), Muhanned Najan (Iraque), Suzanne Tcham (Camarões) e Abdulbaset Jarour (Síria), vice-presidente da ONG, atenderam ao convite dos estudantes do coletivo “SP em Cena” para falarem à sua turma. O encontro aconteceu no Campus próximo à Avenida Paulista, na região central de São Paulo.
Jean apresentou aos alunos alguns vídeos que expõem dados sobre a situação dos refugiados e também sobre seu país, a República Democrática do Congo.

Muhanned, que é muçulmano, falou sobre a situação do Iraque, o motivo de sua vinda ao Brasil e as dificuldades enfrentadas, como a barreira da língua e de sua religião, por exemplo e como vive hoje; Suzanne realizou uma breve apresentação sobre seu país, Camarões explanou sobre a condição da mulher africana e os desafios em terras brasileiras.

“Ninguém escolhe nacionalidade, cor de pele ou religião, então se a gente considera a todos como seres humanos, aí o mundo passa a ser um lugar de todos”, declarou Jean, sobre a necessidade de haver respeito e tolerância com o outro, sobretudo, no caso de imigrantes e refugiados que muitas vezes enfrentam uma série de percalços para chegarem ao país que irá acolhê-los.

Estou em situação de refúgio, pois ninguém é refugiado. Essa palavra é muito chata, pois parece que o refugiado é alguém que fez algo de errado, estuprou, matou e está fugindo. Não somos essa categoria de pessoa. Estamos em situação de refúgio”, diz.

Engenheiro civil de formação, Jean explica que foi obrigado a deixar o seu país, devido ao ativismo político por democracia, situação que fez com que se tornasse alvo de perseguição do governo de Joseph Kabila, presidente da R.D. do Congo, no poder de 2001. “Não sou político, mas sou ativista. Por esse motivo tive que deixar meu país e vir para cá”, conta.

Sobre a dificuldade de se ver numa terra onde desconhece totalmente o idioma, o congolês exemplifica: “O continente africano possui 55 países, apenas 5 deles falam português, isso significa que meu primeiro ‘bom dia’, eu aprendi aqui”.

Ele também falou sobre a missão da África do Coração e sua atuação para tentar amenizar os sofrimentos de imigrantes e refugiados que chegam por aqui e usou uma frase que se tornou célebre, utilizada pelo jovem Cristian, também da RDC, durante a palestra sobre imigração infantil realizada na Câmara de Vereadores, no último dia 20. “A África do Coração é a voz dos sem voz, é a voz dos imigrantes e refugiados, estamos lutando contra o preconceito. Portanto, não julgue antes de me conhecer”, dispara.

Solidariedade seletiva

O presidente da África do Coração também chamou a atenção para a solidariedade seletiva existente na sociedade, não apenas no Brasil, mas a nível mundial. “Morreram 12 pessoas na França e todos foram para o Facebook usar bandeira do país e declarar solidariedade. Não que a ação terrorista ocorrida na França não seja algo triste e que mereça a solidariedade de todos, mas será que as pessoas já pediram solidariedade para o Iraque, para Síria ou para o Congo? Por que o mundo é tão injusto?”, questiona.

Sobre como se sente por estar morando no Brasil e a urgência de vir para um país onde pudesse se sentir seguro, Katumba é enfático: “Estamos aqui renovando nossas vidas e estamos felizes por compartilhar o Brasil com vocês. Mas não tivemos escolha. Viemos para cá para salvarmos nossas vidas, pois se estivéssemos lá, poderíamos estar mortos agora”, concluiu.

Os quatro palestrantes. Da esquerda para a direita: Jean Katumba (RDC), Muhanned Najan (Iraque), Suzanne Tcham (Camarões) e Abdulbaset Jarour (Síria). Foto: Sibele Martins

Camarões
A imigrante Suzanne Tcham está há dois anos no país. Formada em direito, ela veio para estudar agronomia, já que os países africanos e o Brasil possuem condições climáticas semelhantes, mas ainda não conseguiu realizar esse desejo. Hoje ela é responsável pelo departamento jurídico da África do Coração.

Suzanne relatou que sua maior dificuldade foi a língua portuguesa. “Aprender português é muito difícil e se você não fala português, não consegue trabalhar, mesmo como faxineira, trabalho de limpeza, por que não consegue se comunicar. Fui recebida quando cheguei aqui, mas depois tive que cuidar da minha vida, procurar trabalho. Moradia também é algo muito difícil. Morei um ano em uma ocupação, mas também era bastante complicado, tinha batida policial constantemente. Não consegui trabalho com carteira assinada até hoje. O direito do Brasil e de Camarões são muito diferentes, ainda estou aprendendo”, explica.

A advogada falou sobre as diferenças culturais e como é para as mulheres africanas a experiência de viver aqui e também que na cultura africana elas são bastante dependentes dos maridos, que são quem resolvem tudo, mesmo quando elas trabalham fora, possuem um salário.

“Para a mulher africana é muito diferente, por causa da cultura. Na África os homens é quem cuidam das mulheres e também das crianças. A mulher pode estudar ou trabalhar, mas existe uma dependência dos homens e para a mulher que não estudou é mais difícil ainda estar aqui. Como estudei consigo me virar, me sustentar, mas a mulher africana, principalmente, aquela que não estudou acaba ficando somente em casa, cuidando da casa e das crianças e esperando o homem, que sustenta a casa e cuida de tudo, mesmo nos casos em que ela trabalha fora e tem salário”, explica.
Suzanne também abordou a situação das mulheres que possuem filhos, muitas atendidas pela África do Coração e as dificuldades delas para se estabelecerem aqui.

“Mulher com criança é ainda mais difícil. A gente recebe diariamente mulheres com crianças na ONG, elas não têm como trabalhar, não têm comida, não têm como pagar um lugar para morar, também devido à cultura, ela fica esperando que o marido resolva as coisas, mas para os homens também está complicado conseguir trabalhar, muitas vezes até tem trabalho, mas o dinheiro é muito pouco. Felizmente aqui a saúde e a escola são gratuitas e isso facilita as coisas”, avaliou.

Iraque
Muahanned Najan, conta que deixou o Iraque em 2005, devido às consequências após a invasão dos EUA, em 2003. Falou da cultura árabe e das características de seu país natal.

Muhanned também disse que gosta muito do Brasil, da cultura brasileira e de seu povo. Conta ainda que não havia escolhido o país como local para morar, veio para cá para conhecer e passear, mas acabou gostando daqui e ficou. Aqui atua como comerciante.

Ele lamenta também a situação do seu país: “Depois da guerra lá no Iraque, está tudo destruído. Iraque é um país bom, sem violência. Antes não era essa a vida deles. Iraque é um pais de 8.000 anos. Os iraquianos não precisavam abandonar seu país, lá eles tinham tudo de graça, não pagavam luz, água, escola, antes da guerra. Agora em todo país que se vai tem iraquiano. Deus é grande e um dia ele vai voltar a ser um pais como o Brasil, como vários outros”.

Síria
O vice-presidente da África do Coração, Abdulbaset Jarour, 27 anos, nascido em Aleppo, na Síria, veio para o Brasil há três anos, fugindo da guerra em seu país, que já dura seis anos. Abdul, como é conhecido, explicou aos presentes os motivos que o trouxeram para cá e algumas características de seu país de origem.

“O mundo árabe é formado por 22 países e não existem apenas muçulmanos, mas também outras religiões. Nasci em Aleppo, que é uma cidade como São Paulo, centro financeiro do país. No que diz respeito à guerra, a mídia inteira do mundo inteiro fala sobre a Síria. A Primavera Árabe começou como primavera, mas virou um inferno. Os políticos se aproveitaram da primavera árabe. A maioria dos países árabes têm regimes ditatoriais e não se tem liberdade para ter opinião política. No caso da Síria, o presidente que pertence à família Assad está há 45, 50 anos no poder, com regime ditatorial também, que passa de pai para filho, vai para o neto e por aí vai. Ele estava forçando muito o povo da Síria, não dava liberdade”, explica.

“A Primavera Árabe começou na Tunísia, foi pra Líbia, chegou no Egito e depois na Síria. Independentemente de como era, era muito melhor a Síria antes da guerra do que agora. Muitas pessoas perderam os pais, perderam irmãos. Países como EUA e Rússia se aproveitam da situação da Síria. O problema que existe lá não depende do povo. O povo da Síria quer paz e mais nada”, diz Abdul.

O Sírio conta ainda, sobre seu processo de entrada no país. Em 2014, foi para o Líbano. Pediu asilo para Canadá, Iraque, Turquia e Brasil, o Brasil, no entanto foi quem aceitou o pedido. E como vive atualmente.
“Foi a viagem mais longa da minha vida. A maioria do mundo árabe adora o Brasil, principalmente por causa da Copa do Mundo. Os árabes torcem muito pelo Brasil. Cheguei aqui dia 08 de fevereiro de 2014, não conhecia ninguém, nem falava português, sou refugiado, trabalho atualmente como palestrante, também canto música árabe no SESC e sou vice-presidente da África do Coração, que é mais do que uma ONG. Lá me sinto como se estivesse o mundo inteiro ao meu lado. Somos mais de 20 nacionalidades dentro da ONG e cada um possui um pensamento diferente, um olhar diferente, sua língua própria. Creio que seja a primeira ONG de refugiados com várias nacionalidades”, analisa.

Ele também declara sua gratidão ao país que o acolheu.
“Amo muito o Brasil e agradeço por me dar uma oportunidade de montar uma vida nova aqui. É um país acolhedor e adoro a cultura daqui, é linda por que não é pura. A história do Brasil é feita por refugiados e imigrantes, São Paulo também é feita por imigrantes, que estão presentes nos nomes das ruas e avenidas. É uma terra abençoada”, encerrou.

Hanan, 14, da Síria, que compôs o quadro de jovens palestrantes que falaram sobre imigração infantil em palestra organizada pela África do Coração na Câmara de Vereadores no último dia 20, foi convidada pelos estudantes de jornalismo da Faculdade das Américas junto com sua mãe a assistir à palestra na instituição de ensino.

Hanan falou aos alunos de jornalismo sobre o porquê sonha se formar jornalista. Explicou que quer mostrar a realidade dos refugiados e ajudar a combater preconceitos que se formam contra eles e também a intolerância contra árabes e muçulmanos, mostrando que são pessoas de bem e que merecem o mesmo respeito que qualquer outro ser humano.

Repressão na Síria
A mãe de Hanan, Yusra Bakri também falou sobre os horrores vividos pela família ao fugir da guerra na Síria e denunciou que o regime de Assad prendeu crianças pelo simples fato de rabiscarem palavras contra o governo nas paredes e muros. Disse também que apenas em sua família, 150 pessoas morreram durante a guerra. Soldados fugiam para não ter que matar pessoas da mesma família ou conhecidos.

“Antes da guerra, Síria era um pais maravilhoso, o paraíso na terra, agora, a Síria não tem mais prédios, está há cinco anos sem luz. Ficamos como refugiados dois anos e meio. 4 meses em uma tenda. Minha filha menor nasceu na tenda. Os países árabes não nos ajudaram. O Brasil abriu as portas pra gente. IKMR ajudou a gente. Eles fizeram nossos passaportes na Jordânia e compraram as passagens das crianças. Estamos no Brasil há 2 anos e 9 meses”, contou.

A palestra encerrou com uma surpresa para Hanan, que completa 15 anos no próximo dia 05 de novembro. Sensibilizados com o fato de que Hanan não teria uma festa de aniversário, os alunos da Faculdade das Américas resolveram comprar um bolo e refrigerantes e cantar parabéns para ela, que ficou bastante feliz com a homenagem recebida.

Hanan, com Gabriela, do SP em Cena, apagando as velas de seu aniversário de 15 anos. Foto: Leandro Arcanjo – SP em Cena

Por Sibele Martins, jornalista voluntária da ONG África do Coração

1 comment

  1. Não é muito complicado por outra forma é?

Comments are closed.