Imigração Infantil: Jovens de Angola, Bolívia, R.D. Congo e Síria compartilham suas histórias

Quem compareceu à Sala Tiradentes, localizada no 8º andar da Câmara Municipal de São Paulo, na região central da cidade, na última sexta-feira (20), viveu momentos de risos e de emoção com os relatos dos jovens que atenderam ao chamado da África do Coração para ministrarem a palestra “Imigração Infantil e seus desafios”.

Cláudia, 16 anos (Bolívia); Hanan,14 (Síria); Cristian, 17 (República Democrática do Congo) e Luther, 16 (Angola), compartilharam com os presentes, comoventes histórias de vida, seus testemunhos sobre o que significa ser uma criança imigrante ou refugiado e também seus sonhos e esperanças.

Em seus depoimentos eles contaram o que mais sentem falta em seus países de origem, as dificuldades de adaptação ao Brasil, sobretudo, na escola, os episódios de racismo e intolerância que enfrentaram e também sobre os sonhos que pretendem realizar.

Concordam de forma unânime que o fato de os estudos serem totalmente gratuitos no Brasil é algo louvável, totalmente contrário a situação de seus países de origem, razão pela qual acreditam que os estudantes brasileiros deveriam dar maior valor ao ensino.

Outra unanimidade entre os jovens foi a perplexidade causada pela falta de respeito das crianças e jovens brasileiros com pais e professores. Todos se disseram desagradavelmente surpreendidos com a falta de educação e de consideração apresentadas em sala de aula. Confira abaixo um pouco sobre a história de cada um.

Cláudia, 16 (Bolívia)

Em seu relato, a boliviana Cláudia, residente no país há três anos, conta que ficou 5 meses em seu país sem a mãe, que veio ao Brasil em busca de melhores condições de vida. Ao chegar aqui, Cláudia trabalhou para ajudar a mãe no sustento, se deparou com o preconceito, com a intolerância e também com o trabalho escravo, que ronda os bolivianos nas oficinas de costura, em São Paulo.

A jovem se emocionou bastante ao lembrar as dificuldades que ela, filha única, que jamais conheceu o pai, enfrentou junto com a mãe. Diz que sonha se formar em Contabilidade e em comprar uma casa para sua genitora.

Respeito aos professores

“Uma coisa que me surpreendeu muito foi o desrespeito com os professores. Lá na Bolívia, quando o professor aparece na porta, todos temos que ficar sentados e fazer silêncio. Aqui, quando o professor chega eu continuo sentada e calada, mas o restante fica fazendo bagunça, fazendo o que querem e quando a professora fala, ninguém escuta ela”, relata Cláudia.

Preconceito e intolerância

Dentre os preconceitos sofridos em sua escola, Cláudia relata o isolamento e abandono aos bolivianos, que não conseguiram despertar nos colegas brasileiros o mesmo fascínio que o colega espanhol vindo de Madri. Além disso, Cláudia e os demais colegas de classe bolivianos são alvos de risadas e brincadeiras desagradáveis por parte de alunos brasileiros sempre que não conseguem pronunciar as palavras em português da forma correta.

Hanan, 14 (Síria)

A Síria, Hanan veio para o Brasil com sua família há 2 e meio, fugindo dos horrores da guerra em seu país, que já dura seis anos. Ela viu sua melhor amiga morrer quando tinham oito anos de idade e viveu durante três anos numa tenda, em um campo para refugiados na Jordânia antes de vir para o Brasil. O pai veio antes e na sequência a mãe, que estava grávida. Hanan acabou ficando um dia inteiro sozinha na tenda antes de vir para cá. A jovem, a mãe e as irmãs conseguiram viajar para o Brasil com a ajuda da IKMR – ONG brasileira dedicada às crianças refugiadas – que pagou as passagens. Hoje está estabelecida com a família.

Preconceito e intolerância

Hanan relata que não conseguiu frequentar a escola no Brasil. Sua primeira adversária foi a língua. Hanan não conseguia se comunicar em português, sofria bastante bullying por conta disso e chegou a ser chamada de “burra” por uma professora, por que não conseguia se expressar. Hanan então pediu para os pais que só a matriculassem na escola novamente depois que aprendesse a dominar o português. Depois de ter aprendido a língua oficial do país, no entanto, seus problemas não diminuíram. O choque cultural era grande demais.

De acordo com Hanan o contato precoce dos estudantes brasileiros com drogas, bebidas e toda forma de perdição como ocorria na sua escola, além do desrespeito à sua cultura, tendo que lidar diariamente com deboches e comentários desagradáveis por conta de suas vestimentas e religião, contribuíram para que a jovem não quisesse mais frequentar o ambiente escolar. Ficou sabendo que havia uma modalidade de estudos na qual era possível completar o aprendizado através do ensino à distância, ficando sua passagem pela escola restrita à aplicação das provas, o que a possibilitou continuar estudando, longe da conduta prejudicial e da intolerância dos colegas de aula.

“A escola tem drogas e várias coisas que estragam a vida das pessoas, das crianças, então eu falei para os meus pais que seu eu continuasse na escola iria estragar minha vida. Me ofereceram drogas na escola, fui falar com a diretora, mas ela não podia fazer nada, também me bateram e me xingaram por causa disso. Então veio à minha casa uma mulher dizendo que era possível estudar pela internet, através de um programa chamado ‘Educar Mais Brasil’ e fazer somente as provas presencialmente na escola. Trata-se de uma escola particular e meu pai foi atrás de me matricular nessa escola pela internet”. Explica Hanan.

Ela continua: “Por que na escola mesmo, eu não conseguia estudar, as pessoas me zoavam por causa da minha religião. Fora da escola, as pessoas respeitam, mas lá elas zoam, xingam, usam drogas, não têm respeito. Na minha sala eles batiam no professor. O próprio professor acabava falando palavrão por que não aguentava os alunos. A escola que eu estudava, no Cambuci fechou, de tanto que era ruim. Hoje eu estudo pela internet e é ótimo só vou à escola para fazer as provas”, concluiu.

Cristian, 17 (R.D. Congo)

Cristian, da República Democrática do Congo, há 3 anos no Brasil, saiu com os pais do país natal aos 14 anos, fugindo de perseguições políticas. Ele é o terceiro de quatro irmãos. Tem uma irmã e dois irmãos. Em seu relato afirma que ao chegarem ao Brasil viveram grandes dificuldades, desde a barreira da língua, que para eles era bastante difícil, até a questão da segurança. Chegou a dormir com a família debaixo de pontes, pois não tinham onde ficar. Por intermédio da Cáritas brasileira, que atua na defesa dos direitos humanos e amparo aos refugiados, conseguiram um abrigo próximo à Avenida 9 de Julho. Hoje sua família vive em casa própria.

“No nosso país, os pais sempre foram muito severos com relação à educação e aos estudos, se ao invés de estudar ficasse bagunçando ou cabulando aula, sendo que lá os estudos não são gratuitos, não vou nem dizer o que meu pai faria comigo”, brinca o jovem congolês.

“A questão do respeito aos professores aqui no Brasil, eu diria que é muito ruim e eles é que são nossos verdadeiros heróis. Se não fosse por eles, não existiria nenhum prefeito ou senador, nem ninguém”, avalia.

Sobre a convivência na escola, Cristian confidencia: “No meu primeiro dia na escola aqui no Brasil, fiquei sem palavras. Me senti um lixo por que não entendia nada. Depois fui aos poucos me aproximando, fazendo amigos, foi quando precisei mudar da casa do imigrante para nossa casa própria”, conta.

Preconceito e intolerância

“No primeiro dia na segunda escola sofri bullying racial, por que eu era o único negro e não falava a língua portuguesa direito. As pessoas riam de mim por causa da minha cor, por causa dessas coisas. Hoje eu considero todos os meus colegas da escola como irmãos. No começo sempre é difícil. Hoje me sinto mais seguro e sei que se precisar de algo tenho pessoas que irão me ajudar”, concluiu.

Luther, 16, Angola


O Angolano e sorridente Luther mostrou estar muito bem ambientado ao Brasil, graças, aos seus 15 anos no país, convivendo com a cultura brasileira, além de se expressar sem qualquer sotaque ou regionalismo do país de origem. O jovem também é bastante fluente nas gírias utilizadas pelos brasileiros da sua idade. Seus pais vieram ao Brasil para estudar e trabalhar e acabaram ficando. O Pai formou-se em Ciência da Computação e a mãe, em Comércio Exterior. Aqui no Brasil, Luther ganhou mais três irmãos.

Saído de Angola contando apenas 1 ano de idade, ele e a família estabeleceram-se primeiramente no Rio de Janeiro, onde o pai já havia trabalhado e tinha amigos desde 1994. Mudaram para São Paulo quando Luther tinha por volta de 5 anos, indo morar na Zona Leste da cidade.

O jovem conta que a princípio não enfrentou grandes dificuldades, pois aprendeu diretamente o português brasileiro e não teve barreiras por conta de dialetos ou regionalismos – somado ao fato de ser oriundo de país que integra a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), os chamados países lusófonos.

Preconceito e intolerância
O preconceito, no entanto, surgia quando ele se apresentava e informava ser angolano. Brincadeiras do tipo: “você corria de leões?” ou “era caçador na África?” o deixavam chateado, mas ele explica que com o tempo foi aprendendo a lidar com a situação e também concluiu que não era maldade das pessoas, mas que se tratava das informações que elas tinham a respeito da África. “Quando fiz 14, 15 anos, fui entendendo que isso era o que passavam da África e que seu eu fosse para os EUA, por exemplo, poderia acontecer o mesmo ou até pior, por que os brasileiros podem ter seus defeitos, mas sabem acolher”, analisa.

“Estou muito feliz por estar no Brasil. Não posso negar que aqui tenho mais oportunidades, posso fazer vários cursos gratuitos, coisa que não posso fazer lá, aqui tenho tudo perto de casa, se precisar de uma biblioteca, ando 3 ou 4 quarteirões e posso chegar lá, posso fazer uma faculdade boa, pública”, finaliza.

Saudade da terra natal

Todos eles apontaram sentir saudade de um ou mais aspectos de sua terra natal. Cláudia, por exemplo, diz sentir saudade do verde da Bolívia, da abundancia da natureza, algo que contrasta enormemente com a paisagem da capital paulistana onde vive atualmente. Sente falta também de reunir os amigos, de jogar basquete – Cláudia fazia parte do time de sua escola, que disputava partidas contra outras escolas – e daquele calor humano de viver uma comunidade onde todos se conhecem desde pequenos.

“Aqui não tenho muitos amigos, nem conheço meus próprios vizinhos e os jovens passam muito tempo no celular. Como não tenho irmãos, meus amigos da Bolívia eram meus irmãos. Quando cheguei no Brasil senti muita falta também das aulas de educação física, sempre gostei muito de praticar esportes”, diz ela.

Hanan, por sua vez, explica que sente saudade das brincadeiras antigas do seu país, da sua cultura, dos seus amigos, da paisagem da Síria, dos parentes que estão distantes.

“Sinto saudade da minha cidade, da minha escola lá, das minhas amigas, dos meus avós que ficaram na Síria”, conta.

Luther conta que durante sua visita ao país de origem em 2010, constatou que em Angola é possível ficar até mais tarde na rua, por ser mais seguro, não que não exista também violência, mas ele explica que pelo fato de todos se conhecerem, isso torna os locais mais seguros; aprendeu também, que algumas brincadeiras daqui existem lá, porem, com nomes diferentes. Bica bidon, por exemplo, é “esconde-esconde”. Ele também que sente falta do geladinho de mukua (uma fruta africana).

Cristian sente falta também dos amigos e parentes que teve que deixar na República Democrática do Congo para se refugiar no Brasil. Foi dele a frase mais inspiradora da noite, sobre o preconceito e a intolerância. Ao relatar as discriminações que sofreu, ele finalizou com a seguinte frase: “Não me julgue antes de me conhecer”, evidenciando o absurdo que é julgar alguém com base em fatores externos como cor de pele ou religião, situação que impede as pessoas de se conhecerem melhor e se surpreenderem ao perceberem que o alvo daquele preconceito não corresponde à ideia que faziam dele.

Sonhos
Indagados sobre quais seriam os seus sonhos, cada um respondeu as esperanças e objetivos que acalantam seus corações: Cláudia quer se formar contadora e dar uma casa para sua mãe; Hanan quer se tornar jornalista para mostrar a todos o que significa ser refugiado e também para desmistificar os preconceitos em torno dos muçulmanos e da cultura árabe. Ela acredita que o profissional da informação pode e deve colaborar para esclarecer as pessoas, para que entendam que os muçulmanos não são aquilo que se fala deles, que é preciso conhecer antes de falar; Cristian quer ser piloto de avião e Luther quer ser jogador de futebol, se formar em jornalismo esportivo e dar uma vida boa e tranquila para os pais.

Cultura

Indagados sobre se pretendem adotar a cultura brasileira em lugar da cultura de seu país de origem, os jovens demonstraram grande amor e orgulho de suas tradições e foram enfáticos em dizer que jamais irão abandoná-las. Eles endossaram a afirmação de Cristian: “Nunca vou abandonar minha cultura. O que faço aqui no Brasil é adaptar minha cultura à local. O que é bom a gente aprende, o que for ruim, rejeitamos”, disse.

 

Por Sibele Martins, jornalista voluntária da ONG África do Coração

Fotos: Iago de Andrade – SP em Cena, coletivo de estudantes de jornalismo da Faculdade das Américas